Dia Nacional do Livro Infantil
De acordo com a especialista em leitura do Grupo Eureka, Malu Carvalho, a leitura oferece um tempo mais desacelerado para poder se conectar com suas próprias experiências
Em meio a telas que nunca se desligam, rotinas aceleradas e um crescimento das preocupações com a saúde mental, um gesto antigo volta a ganhar força: abrir um livro e ouvir a leitura de uma história. No Dia Nacional do Livro Infantil, celebrado em 18 de abril em homenagem a Monteiro Lobato, especialistas destacam que a literatura pode ser uma experiência em que crianças e jovens podem reconhecer sentimentos, atravessar vivências difíceis e, muitas vezes, transformar em palavras emoções que ainda não sabem nomear.
Segundo a especialista em Leitura do Grupo Eureka, Malu Carvalho, os livros oferecem algo cada vez mais raro no cotidiano contemporâneo: tempo para sentir e refletir. “Em um contexto marcado pelo excesso de estímulos e pelo aumento da ansiedade, a leitura cria um tempo mais desacelerado, em que crianças, jovens e adultos podem se conectar com suas próprias experiências por meio das histórias. Ao encontrar personagens que vivem conflitos, dúvidas e descobertas, o leitor se reconhece, projeta sentidos e, muitas vezes, elabora emoções de maneira singular, mediada pela imaginação e pela relação com o texto”, afirma.
Estudos internacionais apontam que o contato frequente com narrativas literárias contribui para o desenvolvimento socioemocional, amplia a empatia e fortalece o bem-estar psicológico infantil. A leitura compartilhada, especialmente, favorece vínculos afetivos e cria um ambiente seguro para que sentimentos complexos sejam reconhecidos e nomeados.
Essa perspectiva pode ser observada em diferentes obras recentes da literatura infantil brasileira, que têm transformado emoções em experiências narrativas acessíveis às infâncias. Em Os Barcos, de Eliandro Rocha e Alexandre Rampazo, publicado pela editora Casa do Lobo, a memória das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul é ressignificada pelo olhar infantil, permitindo abordar temas como perda, medo e solidariedade a partir da sensibilidade narrativa.
Já A Minha Pessoa Preferida, de Kiara Terra e Cinara Saiónára, também publicada pela Casa do Lobo, explora a saudade e os vínculos entre gerações, mostrando como a imaginação pode funcionar como ponte afetiva diante das ausências. Em Distante… mas nem tanto, do artista visual Paulo Rea, o processo artesanal da marchetaria amplia a experiência sensorial do livro, enquanto a narrativa propõe uma reflexão sobre pertencimento e aceitação a partir de temas como amizade, viagem espacial e superação de diferenças.
Livros como As cores de Tó, de Flávia Ribas e Rodrigo Andrade, abordam a elaboração de perdas e traumas com delicadeza, utilizando as cores para representar emoções e permitindo que a criança encontre uma linguagem simbólica para a dor e para a reconstrução da esperança. Já Nós, de Victor Peres e Perez, com ilustrações de Pedro Vergani, propõe uma reflexão sobre vínculos afetivos e processos de crescimento, mostrando como os laços se transformam ao longo da vida sem deixar de existir. Ambos são da Editora Eureka.
Para Malu Carvalho, os livros destinados às infâncias e juventudes devem ser compreendidos como espaços de experiência, nos quais sentir, imaginar e pensar caminham juntos. “Mais do que oferecer respostas, a literatura abre espaços de escuta, imaginação e elaboração, nos quais cada leitor constrói seus próprios sentidos. É nessa abertura, livre e sensível, que reside sua maior potência: a de nos colocar em relação com o outro, com o mundo e com aquilo que ainda estamos aprendendo a nomear dentro de nós”, destaca.
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