No imaginário popular, a Doença de Parkinson ainda costuma ser resumida ao tremor. Mas, na prática, o que mais pesa para muitos pacientes e famílias é outra lista de dificuldades: lentidão para iniciar movimentos, rigidez, insegurança para caminhar, perda de equilíbrio, travamentos, dificuldade para levantar da cadeira, virar na cama ou manter autonomia em tarefas simples do dia a dia.
Neste 11 de abril, Dia Mundial de Conscientização da Doença de Parkinson, a data chama atenção para uma condição neurológica crônica e progressiva que vai muito além do sinal mais conhecido. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a prevalência da doença mais do que dobrou nos últimos 25 anos e, em 2019, mais de 8,5 milhões de pessoas viviam com Parkinson no mundo.
Além do tremor, a doença pode provocar rigidez muscular, lentidão dos movimentos, instabilidade postural, alterações de equilíbrio, distúrbios do sono, constipação, perda de olfato, ansiedade e depressão. Como muitos desses sinais aparecem aos poucos, é comum que sejam confundidos com envelhecimento, cansaço ou perda natural de disposição.
Para a fisioterapeuta e mestre em Ciências Médicas Dra. Mariana Milazzotto, esse é um dos motivos pelos quais o impacto do Parkinson costuma ser subestimado no começo. “O tremor chama atenção, mas muitas vezes não é ele que mais compromete a vida do paciente. O que pesa mesmo é quando a pessoa começa a demorar mais para levantar, perde segurança para andar, encurta o passo, evita movimentos e passa a depender de ajuda para coisas que antes fazia sozinha”, afirma.
Essa mudança de olhar também tem alterado o espaço da fisioterapia no tratamento. Mais do que um suporte complementar, a reabilitação vem sendo cada vez mais associada à manutenção da mobilidade, da funcionalidade e da independência por mais tempo.
Recomendações recentes da Parkinson’s Foundation reforçam que atividade física planejada pode ajudar no controle de sintomas motores e não motores e contribuir para qualidade de vida. As orientações incluem exercício aeróbico, fortalecimento muscular, alongamento e treino de equilíbrio, agilidade e multitarefa, sempre com adaptação ao estágio da doença e à condição de cada paciente.
Na prática, isso significa trabalhar habilidades que fazem diferença na rotina. “Não é só sobre exercício no sentido mais genérico. É sobre treinar aquilo que o paciente está começando a perder: levantar da cadeira, mudar de direção, sustentar a postura, ampliar o passo, reagir melhor ao ambiente, se mover com menos medo”, diz Mariana.
Segundo a especialista, a fisioterapia ajuda justamente a transformar essas dificuldades do cotidiano em foco de tratamento. “Quando o corpo vai ficando mais lento e rígido, existe uma tendência de o paciente se mover cada vez menos. E isso piora ainda mais a perda funcional. O movimento orientado entra para frear esse processo e preservar o máximo possível da autonomia”, afirma.
Ela ressalta que os efeitos da doença aparecem em situações muito concretas. “A dificuldade não está só em caminhar. Ela aparece na hora de sair da cama, tomar banho, se vestir, entrar no carro, atravessar um corredor mais estreito ou fazer duas coisas ao mesmo tempo. É isso que muda a rotina da casa”, diz.
Outro ponto de atenção é a forma como a família reage a essa perda de autonomia. Muitas vezes, na tentativa de proteger, parentes passam a fazer tudo pelo paciente. Para Mariana, esse excesso de proteção pode ter efeito contrário. “Ajudar é importante, mas substituir o paciente o tempo todo pode acelerar a perda de função. O ideal é oferecer apoio sem apagar a participação dele no que ainda consegue fazer”, afirma.
Isso não significa deixar a pessoa sem assistência, mas encontrar um equilíbrio entre segurança e estímulo. “O paciente precisa de cuidado, claro. Mas também precisa continuar usando o corpo, dentro do que é possível e seguro. Se ele para de tentar, o corpo também vai desaprendendo”, diz.
A fisioterapia, nesse contexto, faz parte de um cuidado mais amplo, que inclui acompanhamento médico, medicação, orientação familiar e, em muitos casos, apoio multiprofissional. O foco não está apenas em força ou alongamento, mas em preservar funções ligadas à vida prática, ao equilíbrio e à independência.
Para Mariana Milazzotto, a data é uma oportunidade para corrigir uma visão limitada da doença. “O debate sobre Parkinson não pode ficar preso ao tremor. A pergunta mais importante é como essa pessoa está vivendo, andando, reagindo, se equilibrando e sustentando a própria rotina. É isso que mostra o impacto real da doença”, afirma.
Com o envelhecimento da população e o avanço das doenças neurológicas crônicas, o Parkinson deve ocupar um espaço cada vez maior nas discussões sobre cuidados de longo prazo. E, nesse cenário, reconhecer os sinais menos óbvios e agir cedo pode fazer diferença direta na qualidade de vida do paciente e da família.
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