Narrativa de Antônio Marcos Fonseca de Farias articula linguagem, teoria e reflexão intelectual para revisitar a formação simbólica do mundo moderno
Em meio a debates recorrentes sobre religião, cultura e produção simbólica, uma pergunta antiga volta a provocar o campo intelectual: quanto a Bíblia moldou a maneira como o Ocidente pensa, escreve e interpreta o mundo? Essa é a provocação central de A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?), obra do professor pós-graduado em Ciências da Religião Antônio Marcos Fonseca de Farias que utiliza a ficção como ferramenta narrativa para tensionar conceitos acadêmicos e ampliar o acesso a uma discussão historicamente restrita ao ambiente universitário.
A trama acompanha um protagonista anônimo — identificado apenas pelo pronome “ele” — cuja experiência se constrói a partir de um deslocamento temporal inesperado. Entre cochilos, devaneios e um estado de consciência ambíguo, o personagem transita simultaneamente entre passado e futuro, misturando memória, projeção e imaginação. Esse fluxo narrativo serve como ponto de partida para um mergulho em reflexões sobre linguagem, tradição e herança cultural.
O ponto de inflexão da história ocorre quando, em sonho, o protagonista retorna à juventude e é convidado a apresentar uma dissertação em uma universidade de prestígio. A tese em questão propõe um mergulho na 'literariedade' do texto bíblico, utilizando o Evangelho de Lucas para legitimar a Bíblia enquanto genitora da cultura ocidental.
Diante de uma banca sarcástica e intimidadora — chegando a chamá-lo de Young —, o personagem se vê obrigado a defender sua trajetória intelectual e suas ideias. O embate acadêmico, carregado de humor e ironia, transforma-se em um palco simbólico onde o conhecimento é confrontado, questionado e ressignificado.
Qualquer tentativa de suplantá-la e erradicá-la
jamais vingará, no que se refere ao inegável e esplêndido
legado da Bíblia (...) Pode-se dizer então que os reflexos, as ressonâncias e
as influências da Bíblia nos mais diversos campos artísticos
são visíveis e tangíveis. Com isto estamos tentando enfatizar
que a Bíblia pode ser entendida e interpretada majoritariamente
não apenas como um livro, mas sim como genitora,
professora e influenciadora de toda uma cultura (A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?), p. 54)
Ao longo dessa apresentação fictícia, o romance articula referências teóricas, conceitos da crítica literária e elementos do discurso acadêmico, sem renunciar a uma linguagem acessível. A narrativa assume um tom metalinguístico, trazendo o
“Enquanto outros materiais se limitam ao rigor dissertacional, este livro propõe uma junção entre teoria e ficção, com certo grau de humor e uma pitada de rigor catedrático”, descreve o autor. Segundo ele, a proposta é alcançar públicos diversos, do leitor informal ao acadêmico, sem esvaziar a complexidade do debate.
Ao transformar um tema considerado espinhoso em narrativa literária, Farias amplia o campo de reflexão sobre o impacto dos textos fundadores na construção da cultura ocidental. Mais do que oferecer respostas definitivas, A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?) é um convite para o leitor ocupar o lugar da dúvida — espaço onde pensamento crítico, imaginação e literatura se encontram.
Ficha Técnica:
Título do livro: A Bíblia é a mãe da cultura e literatura ocidental (?)
Autora: Antônio Marcos Fonseca de Farias
Editora: UICLAP
ISBN/ASIN: 9786552783967
Páginas: 140
Preço: 100,45
Onde comprar: Uiclap
Sobre o autor: Antônio Marcos Fonseca de Farias é professor, escritor e comunicador. Licenciado em Letras/Português, possui pós-graduações em Literatura Brasileira, Língua Portuguesa, Ciências da Religião e Educação, e Mestrado em Letras. É autor de cinco livros — Na Rota do Sucesso, Misteriosamente o inesperado aparece, O Sotérious 1, O Exegeta 1 e A Bíblia é mãe da cultura e literatura ocidental (?) e apresenta o programa de rádio Próxima Fase, na Rádio Comunitária Integração FM 87,9 de Foz do Jordão (PR).
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