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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Vencedor do International Booker Prize é publicado no Brasil

 

Título: Refúgio do tempo

Autor: Gueorgui Gospodinov

Tradutor: Milena M. Mincheva

ISBN: 978-85-7448-331-3

Formato: 16 x 23 cm | 296 páginas

Preço: R$72,00

Lançamento: 22 de abril de 2026

 

Literatura, política e memória

Em Refúgio do tempo, Gospodinov propõe uma reflexão radical ao narrar uma sociedade que, incapaz de imaginar o amanhã, passa a se refugiar em versões idealizadas do passado.


Vencedor do International Booker Prize 2023, o autor búlgaro Gueorgui Gospodinov constrói em Refúgio do tempo uma mistura de ficção com história e crítica social, abordando como o passado pode ser tanto um consolo quanto uma armadilha, especialmente em tempos de incerteza.

 

Neste romance carregado de nostalgia e de trabalho sobre a memória, não desprovido de humor mordaz, o autor mergulha em diversos passados: o do socialismo caricato do Leste europeu, a transição desenfreada para a economia de mercado e suas múltiplas miragens, além das novas ilusões ora alegremente vendidas.

O protagonista Gaustin, alter ego desdobrado do autor, é um enigmático viajante do tempo que monta uma “clínica do passado”, oferecendo um tratamento contra a doença de Alzheimer por meio da reconstrução minuciosa de ambientes de outras épocas, permitindo que os pacientes se localizem novamente em suas próprias memórias.


A princípio criado apenas para tratar pessoas com Alzheimer, o projeto se expande, atraindo um número crescente de pessoas saudáveis e até mesmo estrangeiros em uma Europa em crise que, movidos pela nostalgia, procuram um “refúgio temporal” na esperança de escapar das mazelas da vida moderna. As coisas saem do controle quando o passado passa a invadir o presente. O desenlace da obra é notavelmente premonitório sobre os tempos que nos assolam.


Com uma escrita que combina ironia, melancolia e pensamento crítico, Gospodinov se consolida como um dos autores indispensáveis ​​de nossa época e uma voz importante na literatura internacional. Em Refúgio do tempo, ele nos faz pensar que nem sempre se lembrar de algo é o tratamento indicado; muitas vezes, o esquecimento torna-se terapeuticamente necessário.


A publicação da obra no Brasil é organizada com o apoio financeiro do Fundo Nacional de Cultura da Bulgária.

Sobre o autor


Gueorgui Gospodinov, nascido em 1968 na pequena cidade de Yambol, Bulgária, é tido como um dos mais importantes escritores europeus contemporâneos. Poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, tornou-se uma das vozes mais emblemáticas da literatura do Leste Europeu desde a dissolução do bloco soviético.


Formou-se em Filologia Búlgara pela Universidade de Sófia e finalizou o doutorado em Nova Literatura Búlgara pelo Instituto de Literatura da Academia de Ciências da Bulgária. Teve sua estreia no universo literário com a obra de poesias Lapidarium (1992), e posteriormente publicou Chereshata na edin narod [A cerejeira de um povo] (1996), pelo qual recebeu o prêmio de Melhor Livro do Ano pela Bulgarian Writers' Union. Gospodinov, entretanto, tornou-se mais conhecido internacionalmente após a publicação de Estestven roman [Romance natural] (1999), seu primeiro romance, que traz reflexões sobre o absurdo da vida cotidiana na Bulgária pós-socialista e é marcado por uma estrutura experimental que mescla autobiografia, ensaio e ficção. 


Seu segundo romance, Fizika na tagata [Física da saudade] (2012), obteve uma repercussão ainda maior. Escrito em resposta a um artigo do The Economist de 2010 que se referia à Bulgária como "o lugar mais triste do mundo", o romance pondera sobre o modo como a saudade -- a do seu protagonista e a do seu país -- pode ser vivenciada, acolhida e servir de impulsionadora à construção de um mundo mais empático. Em 2019, o livro foi adaptado para um curta de animação por Theodore Ushev.


Ainda em ascensão, Gospodinov publica Vremeubezhishte [Refúgio do tempo] (2020), sendo vertido ao inglês como Time Shelter em 2022 e se tornando, em 2023, o primeiro livro escrito em búlgaro a vencer o International Booker Prize. O romance retrata uma "clínica do passado" que oferece um tratamento promissor para pacientes com Alzheimer: cada andar reproduz uma década em detalhes minuciosos, transportando os pacientes de volta no tempo.

Em seu último livro, Gradinaryat i smŭrtta [O jardineiro e a morte] (2024), Gospodinov explora questões de morte e luto, inspiradas pela experiência que teve com o próprio pai. Além de romances, contos e peças de teatro, o autor teve participação em dois curtas-metragens, entre os quais Omlet [Omelete] (2009), que recebeu uma Menção Honrosa no Festival de Cinema de Sundance. Sua graphic novel Vechnata Muha [A mosca eterna] (2010) foi a primeira do gênero lançada na Bulgária e o curta-metragem de animação Blind Vaysha [Vaysha, a cega], indicado ao Oscar em 2017, foi baseado em um conto seu.


Site oficial do autor: https://georgigospodinov.com/




Trechos


“[...] O passado também é trabalho local. Por toda parte, haverá casas de outros anos, pequenos bairros, um dia teremos cidades, talvez até um país inteiro, do passado. Para pacientes com perda de memória, Alzheimer, demência, o que você quiser. Para todos aqueles que já vivem apenas no presente do seu passado. E para nós — disse ele por fim, após uma breve pausa, soprando uma longa nuvem de fumaça. — Essa chegada de pessoas sem memória hoje não é por acaso… Elas estão aqui para nos contar alguma coisa. [...]” [p. 46]

“O passado não é apenas o que aconteceu com você. Às vezes é apenas o que você mesmo inventou. “ [p. 50]

 

“E quanto de passado uma pessoa pode realmente suportar? ” [p. 54]

 

“O problema, segundo ele, era que entrar temporariamente no modo de reminiscência, visitar um passado das duas às cinco da tarde e depois sair para algum outro presente desconhecido significava algo muito abrupto e doloroso. Como abrir a porta entre duas temporadas ou passar do verão direto para o inverno. Ou sair continuamente das trevas para a luz, ou da juventude para a velhice, sem transição.

— Ficar apenas algumas horas abre essa janela para o passado muito brevemente.

Voltou a servir o gim de 1968 e disse que, na sua opinião, chegara o momento de dar um passo adiante, de tentar algo mais radical. ” [p. 84]

 

“Por que ele precisava desse experimento, por que precisava expandir o campo do passado? Ele alcançara o que outros jamais sonharam. Foi um dos primeiros a introduzir as clínicas do passado. Centros utilizando sua experiência foram abertos em vários países. As geriatrias agora competiam em procurá‑lo, para trabalhar com ele, para convidá‑lo como consultor. Ele nunca apareceu pessoalmente, ele me enviava à maioria dos lugares para levar sua recusa, sempre educado, mas firme. E, embora tenha recusado todas as entrevistas e publicidade, seu nome foi mencionado com respeito e admiração, como se fala de um gênio e de um excêntrico que poucos tinham visto, mas isso apenas aumentou a lenda.” [p. 87]

 

“[...] A questão é como fazer com que eles, pagando pelo seu assassinato, não se sintam assassinos. Oh, a civilização humana é por demais avançada para justificar o assassinato. Nunca a subestimem por isso. Ela sempre inventará uma palavra bonita. Eutanásia. Parece uma antiga deusa grega. A deusa da boa e bela morte, imagino‑a segurando uma seringa fina em vez de um bastão. “A eutanásia é a morte infligida para o bem da pessoa a quem é infligida.” [...] ” [p. 104]

 

“[...] E esse ladrão, chamado vida ou tempo, vem e leva tudo — memória, coração, audição, aquela coisa entre as pernas. Ele nem escolhe o que gosta, leva o que tiver pela frente. Como se não bastasse, ele ainda zomba de você. Faz seus seios caírem, deixa sua bunda flácida, curva suas costas, afina seu cabelo, deixa‑o branco, coloca pelos nas orelhas, espalha pintas pelo corpo, manchas de velhice nas palmas das mãos e no rosto, faz você resmungar bobagens ou ficar calado, estúpido e esquecido, porque roubou todas as suas palavras. [...]” [p. 110]

 

“[...] Sim, existe Mnemósine, mais parecida com a mãe das musas, existe também Lete, mas elas, de alguma forma, estão sempre nas sombras, meio esquecidas. Provavelmente, quando os mitos surgiram, o mundo era demasiado jovem para ter memórias, demasiado jovem para começar a esquecer… E as pessoas morriam cedo, antes que a velhice esvaziasse suas mentes.” [p. 262]

 

“Tive um sonho do qual consegui reter uma única frase: o monstro inocente do passado. Esqueci meu sonho, a frase permaneceu.” [p. 275]


“Para alguém que ama o mundo de ontem, este livro não foi fácil. Até certo ponto, é uma ruptura com um sonho do passado, ou melhor, com o que eles estão tentando fazer para convertê‑lo. Em certo sentido, também se está separando do futuro.

Diferentes lugares e refúgios fizeram parte da trajetória deste romance.” [p. 293, no Epílogo]

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