Pesquisa com 174 pacientes pediátricos mostra que personagens fantásticos e animais humanizados despertam mais interesse durante sessões de contação de histórias
Já se sabe que a contação de histórias apresenta resultados positivos para crianças hospitalizadas, mas será que qualquer história produz o mesmo efeito? De acordo com um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, em parceria com a Associação Viva e Deixe Viver, crianças internadas tendem a preferir histórias protagonizadas por animais humanizados e monstros em vez de personagens humanos.
O levantamento analisou as escolhas de leitura de 174 crianças entre 6 e 10 anos internadas no Hospital de Clínicas da Unicamp (HC), em Campinas (SP), e no Hospital da Criança da Rede D’Or São Luiz (HSL), em São Paulo (SP), durante sessões de contação de histórias realizadas por voluntários da Viva e Deixe Viver, associação que há 28 anos promove afeto e acolhimento a crianças hospitalizadas por meio da leitura.
Os resultados mostram que, tanto na rede pública quanto na privada de atendimento médico, e independentemente do perfil socioeconômico das famílias, as crianças selecionaram majoritariamente títulos que traziam animais antropomorfizados ou personagens monstruosos com características, emoções ou comportamentos humanos.
Entre os livros mais escolhidos estavam histórias protagonizadas por personagens como ratos, elefantes, macacos e criaturas fantásticas. Já títulos cujas capas apresentavam pessoas, adultos ou crianças, foram pouco selecionados, mesmo quando os protagonistas tinham idade próxima à dos pacientes.
Entre os livros mais selecionados nas sessões de contação de histórias aparecem obras como O monstro monstruoso da caverna cavernosa, Macaco Danado, O ratinho, o morango vermelho maduro e o grande urso esfomeado e Monstro Rosa. Em comum, esses títulos apresentam personagens expressivos, envolvidos em situações lúdicas ou bem-humoradas. Já narrativas protagonizadas por personagens humanos, como Aladim, Pinóquio ou Malasaventuras – Safadezas do Malasartes, tiveram menor interesse. Segundo os pesquisadores, a preferência por bichos e monstros pode estar associada ao caráter simbólico e imaginativo dessas figuras, que favorecem identificação, humor e distanciamento das situações reais vividas pelas crianças durante o tratamento.
De acordo com Márcia Abreu, pesquisadora da Unicamp, a tendência pode estar relacionada ao papel que narrativas fantásticas desempenham na infância, especialmente em contextos emocionalmente delicados. “Personagens não humanos permitem maior distanciamento da realidade imediata e podem ajudar as crianças a lidar com sentimentos comuns durante a hospitalização, como medo, ansiedade e sensação de isolamento”, afirma a especialista.
Para os pesquisadores, animais e monstros presentes em livros infantis costumam apresentar comportamentos humanos, como falar, expressar emoções e enfrentar desafios. Esse recurso facilita a identificação das crianças com as histórias, ao mesmo tempo em que preserva um universo imaginativo. Segundo os especialistas, compreender as escolhas das próprias crianças pode ajudar organizações e profissionais de saúde a selecionar melhor os livros utilizados em atividades de leitura em hospitais, ampliando os benefícios emocionais dessas iniciativas.
“As preferências observadas contrastam com as escolhas feitas por adultos no mercado editorial. Enquanto nas sessões hospitalares predominam animais e criaturas fantásticas, rankings de vendas de literatura infantil na última bienal destacam obras com temas sociais ou protagonismo humano, muitas vezes selecionadas por pais, educadores ou escolas”, destaca Márcia.
Valdir Cimino, fundador da Viva e Deixe Viver, ressalta a importância do estudo. “A pesquisa tem papel fundamental ao demonstrar, com base em dados, os benefícios da contação de histórias para crianças hospitalizadas. Na primeira fase do estudo, foram medidos os níveis de ocitocina, hormônio associado ao vínculo e ao bem-estar, e de cortisol, relacionado ao estresse, comprovando cientificamente a melhora clínica dos pacientes. Esta segunda fase nos ajuda a identificar as literaturas ideais para potencializar os benefícios promovidos pela leitura”, finaliza.
Metodologia - A pesquisa analisou as reações e escolhas de leitura de 174 crianças entre 6 e 10 anos internadas no Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas, e no Hospital da Criança da Rede D’Or São Luiz, em São Paulo. Durante sessões de cerca de 30 minutos de contação de histórias, os participantes puderam escolher quais livros desejavam ouvir a partir da apresentação das capas e de um breve resumo do enredo.
Sobre a Associação Viva e Deixe Viver: Fundada em 1997 pelo paulistano Valdir Cimino, a Associação Viva e Deixe Viver é uma Organização da Sociedade Civil (OSC) pioneira em diversas frentes e políticas públicas. Por meio da arte de contar histórias, forma cidadãos conscientes da importância do acolhimento e de elevar o bem-estar coletivo, a partir de valores humanos como empatia, ética e afeto. A entidade também é referência em educação e cultura, por meio da promoção de atividades de ensino continuado. Nesse sentido, conta com o canal Viva e Eduque, espaço criado para a difusão cultural, educacional e gestão do bem-estar para toda a sociedade. Hoje, além dos 601 fazedores e contadores de histórias voluntários, que visitam regularmente 89 hospitais espalhados pelo Brasil, a Associação conta com o apoio das empresas UOL, Pfizer, Instituto Helena Florisbal e Instituto PENSI, além da Lei Federal de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura.

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