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sexta-feira, 6 de março de 2026

Quando o 8 de março ainda é necessário

 Roberto T. G. Rodrigues

Por Roberto T. G. Rodrigues

Todos os anos, no dia 8 de março, o mundo lembra o Dia Internacional da Mulher. A data já foi repetida tantas vezes que, para muitos, parece apenas mais um marco no calendário. Ainda assim, ela continua necessária — talvez porque, apesar de todos os avanços, ainda estejamos longe do ponto em que essa lembrança deixará de fazer sentido.

Existe uma frase que costuma aparecer nessa época: “todo dia é dia das mulheres”. A frase já se tornou comum, quase um clichê. Mas a ideia por trás dela continua verdadeira. Se a sociedade realmente reconhecesse o valor das mulheres todos os dias, talvez o 8 de março não precisasse existir como um momento de lembrança coletiva.

Nas últimas décadas, algumas mudanças são visíveis. Em ambientes profissionais antes dominados quase exclusivamente por homens, mulheres passaram a ocupar posições de liderança. Em áreas historicamente masculinas — como tecnologia e informática — tornou-se cada vez mais comum encontrar mulheres conduzindo equipes, gerenciando projetos e tomando decisões estratégicas.

Em outros tempos, isso seria raro. Hoje, embora ainda não seja regra, já não causa surpresa.

Mas mudança não significa igualdade plena. Ainda existe uma distância considerável entre aceitar a presença feminina em determinados espaços e realmente respeitar essa presença.

Em muitos ambientes, o preconceito continua existindo — às vezes de forma aberta, outras vezes disfarçado em comentários, piadas ou julgamentos aparentemente pequenos, mas reveladores de mentalidades que resistem a mudar. Basta observar certas conversas informais ou atitudes cotidianas para perceber que o problema não pertence apenas ao passado. Ele ainda faz parte do presente. Não mais como regra absoluta, mas como uma sombra que insiste em permanecer.

Há também uma dimensão dessa realidade que muitas vezes passa despercebida. A mulher raramente exerce apenas um papel. Em muitos casos, ela equilibra diversas responsabilidades ao mesmo tempo: profissional, mãe, filha, organizadora da casa, base emocional da família e, ainda assim, precisa manter sua presença no mundo do trabalho.

Essa carga raramente aparece nas descrições formais de função, mas pesa no cotidiano.

E mesmo quando chega ao ambiente profissional, a mulher ainda enfrenta situações que mostram o quanto o olhar social precisa amadurecer.

Isoladamente, essas situações podem parecer pequenas. Mas, quando se repetem ao longo do tempo, mostram o quanto ainda precisamos evoluir.

O Brasil avançou em vários aspectos. A presença feminina no mercado de trabalho cresceu, mulheres ocupam posições de liderança e o debate sobre igualdade ganhou espaço público. Ainda assim, a distância entre o que já foi conquistado e o que ainda precisa ser alcançado permanece significativa.

Há também questões que tornam essa discussão ainda mais urgente. Assédio, violência e feminicídio continuam presentes na realidade brasileira — temas difíceis, mas impossíveis de ignorar.

A transformação cultural não acontece de um dia para o outro. Ela exige tempo, reflexão e disposição para rever práticas que durante muito tempo foram tratadas como normais.

Talvez seja por isso que o 8 de março continue existindo. Não apenas como uma data comemorativa, mas como um lembrete de que a caminhada ainda está em curso.

Se há algo que se pode dizer com alguma segurança, é que a luta tem produzido resultados. Talvez não na velocidade que muitos gostariam, mas o movimento existe — e ele continua avançando.

Mais do que uma celebração simbólica, este dia também é um reconhecimento — não apenas das conquistas alcançadas, mas do caminho que ainda precisa ser percorrido.

Sobre o autor:
Roberto T. G. Rodrigues é escritor, poeta e autor de Golandar, o Paladino, entre outras obras.

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