Professor da UFSCar explica "magia política", um conjunto de ilusões, dissimulações e truques de Estado que reorganizaram o poder escondendo os mecanismos de sua ação | |
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(Imagem: Divulgação) | |
Uma obra recém-lançada pela editora Hucitec propõe um novo olhar sobre dois episódios conturbados da história política recente do Brasil: a Vaza Jato e os ataques de Bolsonaro às urnas eletrônicas. O livro "Dois ensaios sobre magia política" tem autoria do professor do Departamento de Ciências Sociais (DCSo) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Piero C. Leirner. Leirner é professor de antropologia e pesquisador com mais de 30 anos de trabalho sobre militares brasileiros. Seu trabalho mais recente parte de um enfoque pouco usual na análise de instituições, procurando respostas antropológicas para os agenciamentos estatais. Para o autor, o que se passou no Brasil entre 2018 e 2023 foi uma operação de "magia política": um conjunto de ilusões, dissimulações e truques de Estado que reorganizaram o poder escondendo os mecanismos de sua ação. Segundo o professor da UFSCar, a tese central é provocadora: "Bolsonaro não teria sido apenas um populista fora de controle, mas um ‘dispositivo’ - controlado para ser descontrolado -, que permitiu a setores da cúpula do Judiciário e das Forças Armadas se posicionarem como salvadores da democracia que eles próprios haviam fragilizado", analisa o antropólogo. Para ele, "no mundo militar, uma informação sempre carrega uma contrainformação embutida". Evento de lançamento O evento de lançamento de "Dois ensaios sobre magia política" acontece no dia 1º de abril, quarta-feira, às 17h45, no Restaurante do Lobo, na área Sul do Campus São Carlos. O evento é aberto ao público e contará com a presença do autor. Organização do livro A publicação "Dois ensaios sobre magia política", com 267 páginas, integra a Coleção: Antropologia Hoje da Hucitec e já está disponível no site da editora, https://lojahucitec.com.br/ O livro está dividido em duas partes. A primeira leva o título "Tirando uma arara da cartola" e aborda os hackeamentos conhecidos como "Vaza Jato", que vazou, em 2019, as mensagens trocadas por integrantes da operação Lava Jato no aplicativo Telegram. A segunda parte, intitulada "A magia da urna e a ilusão bolsonarista", diz respeito aos ataques de Jair Bolsonaro às urnas eletrônicas e sua relação com militares. Em ambos os casos, destaca-se uma mística tecnológica que facilitou a manipulação de informações e o reposicionamento de agentes do "topo". A escolha dos episódios Vaza Jato e ataque às urnas O autor explica por que escolheu especificamente esses episódios recentes da política brasileira: "eles cruzam duas questões muito importantes para compreender nossa política. A primeira foi a capacidade de eles produzirem mudanças drásticas no posicionamento de atores centrais - STF (e com ele o aparato jurídico) e altas cúpulas militares -, e, a partir destes, do andamento do Estado e da política em outros poderes. A segunda envolve o alto grau de manipulação de informações e de obliteração de dados, realizados sem que isso fosse percebido como parte de um modo de ação do próprio Estado, especialmente quando se refere a conteúdos baseados em tecnologias da informação. É daí que entra a metáfora da ‘magia’". Olhar antropológico Segundo Leirner, o tipo de análise antropológica que o orientou deve-se a processos inconscientes, inspirada principalmente em alguns pontos da obra do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. "Por conta disso procurei olhar para o que se tinha disponível e entender agenciamentos que estão conectados de formas nada ou pouco aparentes, dando destaque para seu caráter sistemático. Assim, por exemplo, tento mostrar como a Vaza-Jato e o golpe do 8 de janeiro adquirem um outro patamar de compreensão quando estão conectados. Do meu ponto de vista estes atores envolvidos não estão isolados, um se faz como uma espécie de contraponto sistemático em relação ao outro". Trajetória de pesquisas A obra "Dois ensaios sobre magia política" é fruto de mais de 30 anos de pesquisas etnográficas com militares, desde o mestrado do autor. O financiamento mais recente foi do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Piero C. Leirner também é autor de "Meia-Volta, Volver: um estudo antropológico sobre a hierarquia militar" (FGV, 1997), "Antropologia dos Militares: reflexões sobre pesquisas de campo" (organizado com Celso Castro, FGV, 2009), "O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida. Militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica (Alameda, 2020 [2ª ed.]). Trechos do livro A seguir, você confere alguns trechos do livro selecionados pela editora Hucitec: (...) "Relacionados com a ação política de juízes, militares e de Bolsonaro, os temas aqui mobilizados podem ser tragados pelo pântano ideológico que envolveu estes personagens nos últimos anos. Vou lançar mão de encadeamentos que fogem a algumas certezas estabelecidas no interior da ‘polarização’ política". (p. 12) "Recusar a ideia de que agentes com poder tentam produzir direcionamentos e se ocultar de conspirações é tão problemático quanto dizer que tudo é uma conspiração e uma manipulação de agentes ocultos, como se o Estado fosse parte de uma seita que se reúne em salas secretas. Porém, algo sempre acontece quando informações sobem à superfície". (p. 16) "No mundo militar, uma informação sempre carrega sua contrainformação embutida. (...) Não raramente militares utilizaram de forma consciente um repertório construído em teorias da conspiração para dar fundamento às suas reais conspirações, geralmente negadas enquanto tais". (p. 13) "(...) toda a ilusão depende de apagamentos de informação, obliterações, sobreposições de conteúdos mobilizados de forma arbitrária." Por isso "’A explicação antropológica não precisa recorrer à ‘capacidade extraordinária’ de certos agentes para manipular a realidade." Sendo assim, "’Não se trata de desmascarar os truques do mágico, mas de entender as razões do porquê de se acreditar nele". "Tal como nas operações mágicas, o Estado oculta parte de seus processos e coloca algo em seu lugar". (p. 28) |

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