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terça-feira, 3 de março de 2026

Duas fêmeas, uma picada, treze dias: o romance alemão que chega ao Brasil no mês da mulher

 Malária, da alemã Carmen Stephan, chega em março às livrarias brasileiras com uma das narradoras mais originais da ficção contemporânea: a fêmea de mosquito anófeles que picou a protagonista na Amazônia — e depois não conseguiu mais se separar de sua vítima


Malária: um romance, de Carmen Stephan
Divulgação/Tinta-da-China Brasil

Em 2003, a escritora alemã Carmen Stephan viajava pela Amazônia quando foi picada por uma fêmea de anófeles, o mosquito transmissor da malária. Anos mais tarde, inspirada pelo livro O médico doente, de Drauzio Varella, Stephan decidiu contar essa história — mas sob outro ângulo. Deu voz à fêmea que a picou: a criatura que esteve lá, que pousou naquela pele específica naquela noite específica e que não conseguiu mais ir embora.

Depois de picar a vítima, algo inesperado acontece com a narradora: ela não abandona sua hospedeira. Atormentada por uma culpa que um inseto não deveria ser capaz de sentir, acompanha Carmen pelos treze dias de febre delirante, diagnóstico tardio e abandono médico no Rio de Janeiro — observa, sussurra, se funde. Os mesmos parasitas que depositou no sangue de Carmen agora habitam as duas. 

Malária — premiado na Alemanha com o Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e o Buddenbrookhaus para romance de estreia, traduzido por Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut — chega às livrarias brasileiras em março pela editora Tinta-da-China Brasil, durante o mês da mulher: uma história sobre dois corpos femininos, sobre escuta e silêncio, sobre o que significa ser ignorada quando sua vida depende de ser ouvida. 

“Nesse sutil e avermelhado lugar da picada na pele de Carmen, morte e vida se juntavam num ponto quase invisível”, anuncia a narradora desse romance original, ambientado na Amazônia, na Bahia e no Rio de Janeiro, que une a potência das narrativas autobiográficas, a maestria da construção ficcional e a beleza da divulgação científica. 

O sistema que não escuta o corpo de uma mulher

A protagonista é Carmen — mas não exatamente a Carmen que escreve. É uma Carmen contaminada em 2004, internada num hospital no bairro de Olaria, no Rio, com as pálpebras amarelas, a garganta imóvel e o sangue sendo devorado por dentro. Uma mulher que os médicos não examinam direito porque já decidiram que é dengue — como todos os outros casos em meio à epidemia que assolava o Rio naquele verão.

O romance documenta com crueza como o corpo feminino é tratado quando grita e não é escutado. A narradora — a fêmea do mosquito — observa tudo e vê o que os médicos se recusam a ver. A violência aqui não é espetacular: é a da ignorância institucionalizada, a do diagnóstico feito sem olhar para a paciente, a do sistema que trata sintomas, não pessoas.

“Ela podia ter sido salva há tempos. Mas ninguém enxergou, ninguém entendeu. Pessoas que não pensam são supérfluas; são perigosas.”

O corpo da mulher é o território do livro: submetido à febre, ao descaso, ao abandono, e ao mesmo tempo fascinante na sua capacidade de resistir. Stephan descreve o adoecimento com precisão — cada tremor, cada gota de suor, cada alucinação tem peso e textura.

Duas fêmeas, uma história 

Há uma simetria que o livro não anuncia, mas que ressoa em cada página: as duas protagonistas de Malária são fêmeas. Carmen, a mulher alemã que adoece. E a fêmea de anófeles que a picou.

Só a fêmea do mosquito pica. O macho não precisa de sangue. É a fêmea que, após o acasalamento, sente o corpo pedir proteína para produzir seus ovos. É ela que sobrevoa o escuro em busca de calor, que pousa num pedaço de pele e arrisca ser esmagada a qualquer momento — tudo para que seus filhotes sobrevivam. O livro deixa isso explícito, sem drama:

“Não pensem que eu queira matar. Não é uma alegria picar o pescoço de alguém tantas vezes maior do que eu, correndo sempre o risco de ser amassada, dedetizada. Não tenho escolha. [...] Tenho de picar para meus filhotes sobreviverem. No meu interior, a mão invisível mexe num programa, assim como aconteceria no seu interior.”

Ela não é vilã. Ela é mãe. E é essa mãe — essa criatura minúscula que mata sem querer matar, que age por instinto de sobrevivência e de cuidado com seus filhos — que depois não consegue se separar da mulher que ela própria infectou. Que fica. Que observa. Que, ao longo de treze dias e noites, se torna a testemunha mais íntima do sofrimento de Carmen.

A fêmea de anófeles — termo que, ironicamente, em grego significa “inútil” — carrega os mesmos parasitas que se espalham pelo sangue de Carmen, e por isso, de um jeito perturbador, a conhece de dentro: passeia pela sua infância, acompanha seus pensamentos de febre, ouve as conversas ao pé da cama que a própria paciente mal consegue processar.

“Quem freou Alexandre, o Grande, o conquistador do mundo? Uma cruzinha preta, que aterrissou num pedaço de pele. A malária interrompeu Cruzadas, lançou na cova mendigos, crianças, imperadores e papas, vicejou nas duas guerras mundiais. Não foram os canhões, não foram os adversários que decidiram algumas batalhas, mas uma manchinha flutuante com um par de asas. Quem protegeu Roma da invasão dos povos germânicos? E quem acabou contribuindo para a queda do Império Romano? Mosquitos não têm partido”, destaca a narradora. 

Amazônia, Bahia, Rio de Janeiro — e a alemã no Brasil 

Carmen Stephan é alemã, mas vive no Brasil há décadas — hoje, na Bahia. Esse deslocamento atravessa o livro de um jeito que vai além do biográfico: ela escreve sobre a Amazônia com a maravilha de quem chega de longe e sobre o sistema de saúde com a revolta de quem ficou. Adoecer num país que não é o seu tem um peso específico — o de depender de pessoas que mal te conhecem quando sua vida está em jogo, o de não ter rede, o de ser estrangeira até para a dor. No Rio, Carmen se ancora em sua amiga Ana e no namorado Carl — que logo precisa voltar para a Alemanha, deixando-a ainda mais sozinha diante de médicos que não a escutam.

A tradução de Claudia Abeling — ela mesma escritora e poeta — captura a precisão clínica e a beleza melancólica do texto. Stephan escreve uma prosa que é ao mesmo tempo rigorosa e sensorial: sentimos o calor do Rio, o zumbido no escuro do quarto, o peso dos lençóis sobre um corpo que arde.

Malária, de Carmen Stephan, chega às livrarias brasileiras em março de 2026 pela Tinta-da-China Brasil.

Sobre a autora
Carmen Stephan (Berching, Alemanha, 1974) vive na Bahia. Depois de vários anos morando no Rio de Janeiro, publicou em 2005 seu primeiro livro, Brasília Stories, uma coletânea de contos. É autora, ainda, de It’s All True (2017), traduzido na França, que conta a história de quatro jangadeiros e recebeu uma bolsa de literatura da Baviera. Stephan trabalhou por muito tempo como jornalista para a SZ-Magazin e o Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, entre outros veículos. Viveu também em Genebra e Munique.

Sobre a tradutora
Claudia Abeling (São Paulo, 1965) cursou editoração na ECA/USP e fez a Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Foi editora de diversas casas literárias paulistanas e, como bolsista da Fundação Bertelsmann, trabalhou também em Frankfurt, na Alemanha, nas editoras Campus e Vittorio Klostermann. Num segundo momento, concentrou-se na tradução do alemão. Entre os títulos trazidos ao português, dois foram finalistas do prêmio Jabuti. Também é autora dos livros de poemas p:l:a:n:g:e p:l:a:n:g:e (Quelônio, 2019) e a que manca, no prelo.

Ficha técnica

TítuloMalária: um romance
Autor: Carmen Stephan
Tradução: Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut
Capa: Vera Tavares
Páginas: 168 pp.
ISBN: 978-65-84835-59-7
Formato: Brochura, 14 x 21 cm
Preço: R$ 79,90
Data de lançamento: 14 de março de 2026

Sobre a Tinta-da-China Brasil
Tinta-da-China Brasil foi fundada em 2012, no Rio de Janeiro, por Bárbara Bulhosa, para trazer ao país a excelência da casa fundada em 2005 em Lisboa. Em 2022, a editora brasileira passou para os cuidados da Associação Quatro Cinco Um, em São Paulo, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, que deu prosseguimento ao projeto editorial, concentrado nos eixos de literatura, história e ciência, com desvios pelo humor, jornalismo, quadrinhos e crítica literária.

https://www.tintadachina.com.br/
https://www.instagram.com/tintadachinabrasil/

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