Condições como vulvodínia e dispareunia seguem pouco reconhecidas, apesar do impacto físico, emocional e social

Sensações persistentes de ardor, queimação, pontadas ou dor profunda na região genital fazem parte da rotina de muitas mulheres, mesmo quando não há relação direta com a atividade sexual. Em diversos casos, esses desconfortos não apresentam sinais evidentes nos exames iniciais, o que contribui para diagnósticos tardios e para a normalização do sofrimento. Ainda hoje, esse tipo de dor costuma ser minimizado ou interpretado como algo esperado em determinadas fases da vida, como após o parto, durante alterações hormonais ou ao longo do envelhecimento, reforçando o silêncio em torno do problema.
Esses quadros podem estar associados a diferentes condições clínicas, como vulvodínia, dispareunia, alterações hormonais, cicatrizes pós-parto, infecções de repetição ou disfunções do assoalho pélvico. Embora tenham causas e abordagens distintas, compartilham um ponto em comum: a dificuldade de reconhecimento precoce. A consequência é um impacto que vai além do físico, afetando autoestima, relações afetivas, saúde mental e qualidade de vida.
Nesse contexto, a dermatologista Dra. Vivian Amaral, que atua há mais de duas décadas na área de saúde íntima feminina, acompanha de perto a realidade de mulheres que convivem por longos períodos com dor sem um diagnóstico claro. Segundo ela, a invisibilidade clínica ainda é um dos principais entraves para o cuidado adequado.
Dados nacionais ajudam a dimensionar esse cenário. Um estudo brasileiro publicado na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia avaliou mulheres com vulvodínia e revelou que o tempo médio de convivência com a dor antes de um diagnóstico foi de aproximadamente seis anos. Mais da metade das participantes havia passado por três ou mais profissionais de saúde, e 49% permaneceram sem diagnóstico definitivo mesmo após essas consultas, evidenciando um quadro relevante de subdiagnóstico no país.
Para a especialista, esse atraso reflete uma combinação de fatores culturais e clínicos. “Muitas mulheres acreditam que sentir dor na região íntima é normal ou inevitável. Quando procuram ajuda, nem sempre encontram profissionais preparados para investigar além do exame básico”, afirma. Ela destaca que a ausência de alterações visíveis não exclui a chance de doença e que o diagnóstico exige escuta qualificada e compreensão da complexidade da região íntima feminina.
Outro aspecto que contribui para o problema é a fragmentação do cuidado. A dor íntima pode envolver componentes dermatológicos, ginecológicos, neurológicos e musculares, o que demanda uma abordagem integrada. Quando o atendimento se limita a tratar sintomas isolados, como inflamações recorrentes ou infecções inespecíficas, a causa principal tende a permanecer oculta.
A comunicação também desempenha papel central. O constrangimento em relatar dor íntima, aliado ao receio de julgamento, faz com que muitas mulheres adiem a busca por atendimento. “Dor não é normal, independentemente da fase da vida. Quando ela é ignorada, o corpo continua sinalizando que algo não está bem”, conclui a Dra. Vivian Amaral.
Com o avanço das discussões sobre saúde da mulher, cresce a necessidade de ampliar o conhecimento sobre dor íntima feminina entre profissionais e pacientes. Reconhecer o sintoma como um sinal clínico legítimo, investigar suas causas e oferecer tratamento adequado são passos fundamentais para romper o ciclo de sofrimento silencioso que ainda marca a trajetória de muitas brasileiras.
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