Escritora transforma história de família marcada pelo silêncio em livro premiado - Ousados Moda

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Escritora transforma história de família marcada pelo silêncio em livro premiado

 Inspirada em acontecimentos reais da vida de Lucila Silva, obra de autoficção é um retrato de violências psicológica, sexual e doméstica

É bom quando o pai viaja dá título ao novo livro de Lucila Silva. A frase que poderia soar como uma simples constatação ganha outro significado ao se revelar como uma violência vivida por uma criança. Inspirada em acontecimentos reais, a narrativa é uma evidência dos maus-tratos dentro de casa, do abuso sexual e das marcas deixadas na infância por situações que permanecem escondidas atrás da rotina, da religiosidade e das aparências de uma família tradicional brasileira. Em 2025,a obra recebeu o 3º lugar no Prêmio Cruz e Souza de Literatura, na categoria Romance de Autor Catarinense. 

A decisão de levar essa história para as páginas não foi simples para Lucila, que escreveu essa intensa autoficção aos 60 anos. Depois de décadas mantendo esses traumas na memória, encontrou na literatura uma forma de dar nome a experiências que, durante muito tempo, permaneceram silenciadas. 

Ambientada na primeira colônia alemã de Santa Catarina, a obra incorpora elementos da cultura, da linguagem, dos costumes e da religiosidade da região. A história percorre décadas e acompanha não apenas a infância de três irmãos, duas meninas e um menino, mas também as consequências de uma convivência marcada pelo autoritarismo e assédio paterno. Através da memória, a escritora costura palavras para ir além do relato da violência e tenta compreender como uma comunidade pode conviver com aquilo que não consegue ou se recusa a enxergar. 

Na narrativa, uma das personagens sente vergonha ao entrar na água, enquanto outra tenta se livrar, durante o banho, da sensação de repulsa provocada pelos abusos do pai, além de de demonstrarem receio diante dos adultos — os quais, apesar de tantos sinais, nada percebiam. Ao encontrarem maneiras próprias de sobreviver à rotina familiar, os irmãos cantam para sentir segurança, escondem-se ao máximo do abusador, evitam conflitos e permanecem em constante estado de alerta. Até mesmo o cumprimento “Bença, Pai”, associado à educação e à religiosidade, ganha outro significado. 

Para Lucila, abordar esse tema também significa enfrentar a vergonha que costuma acompanhar quem a sofre. No relato, a dor íntima pode se transformar em uma luta compartilhada, capaz de ajudar outras pessoas a reconhecer situações que antes não sabiam nomear e buscar ajuda.  

O novo livro de Lucila Silva é um registro franco, por vezes duro, e atravessado por ironia, sem romantizar o sofrimento ou esconder suas partes mais incômodas. É Bom Quando o Pai Viaja é uma forma de romper o silêncio e transformar uma experiência familiar em reflexão coletiva. Ao contar a história de três crianças que encontram alívio na ausência do próprio pai, a autora coloca uma pergunta incômoda no centro da narrativa: quantas vezes o sofrimento infantil está diante dos adultos, mas permanece invisível porque ninguém consegue ou se dispõe a fazer as perguntas certas?  

Ficha Técnica: 

Título do livro: É Bom Quando o Pai Viaja 

Autora: Lucila Silva  

Editora: Editora Yantra 

ISBN/ASIN: 978-65-01-15307-0 

Páginas: 175 

Preço: R$ 64,90 

Onde comprar: Livro 

Sobre a autora: Natural de São Pedro de Alcântara, em Santa Catarina, Lucila Silva é formada em Administração, com especialização em Gestão de Pessoas. Durante mais de 20 anos, atuou como professora de Yôga, Tantra e Sámkhya, ministrando cursos no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina sobre meditação, respiração, concentração, autoconhecimento, gestão de conflitos e relacionamentos interpessoais. É autora de Léxico de Yôga Antigo (Swásthya Yôga Kôsha), considerado um dos mais importantes dicionários de Sânscrito-Português publicados no Brasil. 

Instagram: @lucilasilva108 

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