Ela dorme mal, acorda no meio da noite, sente o coração acelerar, perde a paciência por pouco, se percebe mais irritada, mais cansada e menos capaz de lidar com a própria rotina. Em muitos casos, o diagnóstico chega rápido: ansiedade. Mas nem toda crise começa na mente. Em mulheres, alterações hormonais da perimenopausa, distúrbios da tireoide e o colapso do sono podem criar um estado de alerta permanente que se parece muito com ansiedade emocional e, às vezes, é tratado como se fosse só isso.
O problema não está em reconhecer a ansiedade. Está em reduzir tudo a ela sem investigar o que o corpo está fazendo ao mesmo tempo. A transição menopausal, por exemplo, está associada a sintomas de humor, piora do sono, queixas cognitivas e maior vulnerabilidade emocional. Ao mesmo tempo, alterações da função tireoidiana também podem causar irritabilidade, nervosismo, palpitações e insônia, sintomas que facilmente entram na prateleira dos transtornos ansiosos sem uma avaliação mais ampla.
Segundo o Dr. Arthur Victor de Carvalho, especialista em saúde hormonal feminina, esse é um dos erros mais comuns no cuidado com mulheres adultas, especialmente a partir da segunda metade dos 30 anos e na transição para a menopausa.
“Muitas mulheres não estão apenas ansiosas. Estão dormindo mal, com hormônios oscilando, metabolismo em queda e o corpo inteiro funcionando em estado de alerta. Se ninguém investiga isso, elas acabam tratadas pela metade.”
A frase resume um cenário frequente. A mulher percebe que algo mudou, mas não consegue nomear. Ela não necessariamente se sente triste. Muitas vezes, sente-se “estranha”: mais reativa, mais cansada, mais intolerante, mais vulnerável a pequenas pressões. É justamente aí que mora a confusão. Porque a ansiedade hormonal não costuma chegar sozinha. Ela vem misturada a sinais físicos que, quando observados em conjunto, contam outra história.
Quando o corpo começa a falar mais alto
Na ansiedade mais ligada ao sofrimento emocional, o quadro costuma ter gatilhos mais reconhecíveis: conflitos, sobrecarga, trauma, ruminação, medo antecipatório, tensão mental constante. Já quando há um componente hormonal importante, o padrão tende a vir acompanhado de alterações corporais mais evidentes. Piora do sono, calorões, suor noturno, irregularidade menstrual, queda de libido, névoa mental, cansaço persistente, palpitações e oscilação de humor sem explicação emocional proporcional são alguns dos sinais que acendem o alerta para uma investigação além da esfera psicológica.
A Menopause Society destaca que a perimenopausa pode trazer alterações no humor, no sono e na cognição anos antes da menopausa confirmada, inclusive em mulheres que ainda menstruam. Isso significa que uma paciente pode estar em transição hormonal sem perceber e começar a viver um desconforto emocional real, potencializado por noites ruins, fadiga e flutuações biológicas.
“Tem paciente que chega dizendo que perdeu o controle emocional. Mas, quando você aprofunda, encontra noites fragmentadas, ondas de calor, queda de progesterona, irregularidade do ciclo e uma sensação corporal de ameaça o tempo todo. É impossível separar isso completamente do que ela está sentindo.”. alerta o Dr. Arthur Victor de Carvalho.
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