Pamella Kelly Toski Ferreira de Almeida*
No Brasil, cerca de 14,4 milhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência e aproximadamente 2,4 milhões são autistas, segundo dados do IBGE. Além disso, inúmeros brasileiros são neurodivergentes, possuem altas habilidades/superdotação e convivem com diferentes transtornos e síndromes.
Apesar da crescente visibilidade do tema capacitismo, ainda é comum que surjam inseguranças sobre como agir, se comunicar ou abordar essas questões no cotidiano, muitas vezes por receio de cometer erros ou de dizer algo que possa ser inadequado ou ofensivo.
No entanto, será que já paramos para refletir sobre o que, de fato, é o capacitismo? Muitas vezes evitamos determinados assuntos justamente pelo receio do erro. Porém, mais do que o silêncio, o que precisamos é acessar um conhecimento mínimo e responsável que nos permita falar, agir e conviver com respeito.
Capacitismo é a prática discriminatória de pressupor incapacidade, inferioridade ou limitação de uma pessoa em razão de sua deficiência, antes mesmo de conhecê-la, ouvi-la ou compreender suas reais potencialidades e necessidades.
Assim como aprendemos regras de etiqueta profissional no ambiente de trabalho, utilizamos uma escrita adequada em e-mails corporativos ou mantemos cuidados básicos de higiene, o conhecimento sobre o capacitismo também é essencial para a convivência social e profissional. É ele que nos ajuda a compreender atitudes, palavras e práticas que devem ser evitadas, bem como aquelas que promovem inclusão, dignidade e respeito.
Mas por onde começar a combater o capacitismo no cotidiano? A resposta pode parecer simples: pelo início. No entanto, onde exatamente está esse começo? Ele está no modo como nos aproximamos do outro, na forma de abordar, cumprimentar, comunicar e reconhecer as particularidades de cada pessoa.
O capacitismo se manifesta em práticas muitas vezes consideradas “normais’’, mas que reduzem a autonomia e o protagonismo das pessoas com deficiência. Entre elas estão: presumir incapacidade sem conhecer a pessoa, falar com acompanhantes em vez de se dirigir diretamente a quem vivencia a deficiência, infantilizar a comunicação ou supor limitações intelectuais e emocionais sem fundamento.
Também é capacitismo tratar a pessoa com deficiência como exemplo de superação apenas por existir ou trabalhar, reforçando o chamado capacitismo inspiracional, que romantiza desafios e invisibiliza as barreiras sociais. Da mesma forma, é equivocado compreender a inclusão como ato de gentileza ou favor, quando se trata de um direito garantido por lei.
Essas atitudes revelam uma lógica excludente, na qual o problema é colocado no indivíduo, e não nos ambientes, sistemas e relações. Revisar essas práticas é essencial, pois inclusão não é exceção, caridade ou conteúdo “extra”, mas uma competência social, ética e profissional indispensável.
Não é necessário conhecer todas as deficiências existentes, mas é fundamental buscar compreender aquelas com as quais convivemos. Isso envolve aprender, perguntar e ouvir. Muitas pessoas, por exemplo, não se sentem confortáveis com abraços, beijos ou apertos de mão e, essa compreensão já faz parte do nosso convívio social. Da mesma forma, com as pessoas com deficiência, é essencial perguntar como preferem ser tratadas e respeitar seus limites e sua autonomia.
Combater o capacitismo não exige perfeição, mas disponibilidade para rever comportamentos, aprender com as pessoas e transformar as chamadas barreiras atitudinais, aquelas manifestadas em comportamentos, falas e práticas excludentes. Mais do que acumular teoria aprendida em livros, cursos ou vídeos educativos, é no cotidiano e especialmente no ambiente de trabalho onde este conhecimento precisa ser colocado em prática, promovendo relações mais humanas, respeitosas e inclusivas.
*Pamella Kelly Toski Ferreira de Almeida é Pedagoga no Instituto IBGPEX, atua na gestão de programas educacionais como Jovem Aprendiz e Despertar, promovendo inclusão, qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho para jovens e pessoas com deficiência. É especialista em Educação Especial e Inclusiva e em Transtorno do Espectro Autista (TEA), com foco em práticas alinhadas ao impacto social e à educação transformadora.

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