O acidente vascular cerebral (AVC) passou o infarto como causa de morte no Brasil. Segundo o Portal da Transparência do Registro Civil, foram cerca de 85 mil mortes por AVC em 2024 e 78 mil por infarto. A doença também avança entre os mais jovens. Um estudo publicado em setembro deste ano na revista Neurology, da Academia Americana de Neurologia, mostra que a incidência de AVC quase dobrou entre adultos de 20 a 54 anos nos Estados Unidos em pouco menos de três décadas, de 34 para 62 casos por 100 mil habitantes ao ano. O estudo analisou casos de internação por AVC em 5 regiões dos Estados Unidos em períodos específicos entre os anos de 1993 e 2000. A forma mais prevalente foi o AVC isquêmico, que teve incidência aumentada de 23,8 para 47,3 casos/1000.000 habitantes no período.
O dado chega às vésperas do Dia Mundial do AVC, em 29 de outubro, data dedicada à conscientização sobre a doença. A mesma data marca o Dia Nacional e Mundial da Psoríase, doença inflamatória que pode elevar justamente o risco de AVC. Entre janeiro e outubro de 2025, o Brasil registrou mais de 64 mil óbitos por AVC, o equivalente a uma morte a cada seis minutos.
Entre os mais de dois mil jovens que tiveram AVC no estudo americano, cresceu ao longo do período a presença de hipertensão, diabetes e fibrilação atrial - arritmia que favorece a formação de coágulos. O uso de substâncias saltou de cerca de 5% para 40% dos pacientes, puxado principalmente pela maconha. Os autores ressalvam que a pesquisa não incluiu um grupo comparável de pessoas sem AVC, por isso ainda não é possível afirmar quanto cada fator responde pelo aumento.
Para o Dr. Guilherme Succi, cirurgião cardiovascular e diretor do curso de Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, o perfil do paciente mudou mais rápido que a percepção de risco. “A hipertensão costuma evoluir anos sem tratamento. Como a maioria dos pacientes é assintomática, é comum que se conviva com a doença sem que seja feita aferição da pressão, o que atrasa o diagnóstico. A fibrilação atrial, arritmia cardíaca que pode levar à formação de coágulos no coração, também pode permanecer silenciosa até o primeiro evento de isquemia cerebral. Quando um adulto de 40 anos chega ao pronto-socorro com a fala arrastada ou fraqueza de um lado do corpo, cada minuto conta - e a idade ainda leva muitos a atribuir o quadro a cansaço ou enxaqueca, sem que se suspeite de possível AVC”, afirma o especialista.
A inflamação que vai além do local onde se manifesta
A relação entre inflamação e saúde cardiovascular tem recebido crescente atenção científica. Doenças que afetam diferentes tecidos do organismo podem estar associadas a alterações sistêmicas, embora os mecanismos envolvidos e a contribuição de cada condição para o risco individual ainda precisem ser esclarecidos.
Na saúde bucal, a doença periodontal é um exemplo relevante. A periodontite é uma doença inflamatória crônica, multifatorial, associada a um biofilme microbiano em desequilíbrio e à resposta imuno inflamatória do hospedeiro. Quando não controlada, a doença periodontal pode levar à perda progressiva dos tecidos que sustentam os dentes, levando à perda dentária.
Uma declaração científica da American Heart Association, publicada na revista Circulation em dezembro de 2025, atualizou as evidências sobre a relação entre doença periodontal e doença cardiovascular aterosclerótica. O documento reúne estudos que apontam associação entre essas condições e discute mecanismos biológicos potencialmente envolvidos, como episódios de passagem de microrganismos para a circulação sanguínea e inflamação sistêmica.
Esses achados são relevantes, mas precisam ser interpretados com rigor: a associação entre doença periodontal e eventos cardiovasculares não demonstra, por si só, uma relação causal direta. Da mesma forma, embora o tratamento periodontal possa reduzir determinados marcadores inflamatórios sistêmicos como a proteína C-reativa e o fibrinogênio, ainda não está estabelecido que ele, isoladamente, previna infartos ou AVCs.
Para a Dra. Manuela Rocha Bueno, cirurgiã-dentista e docente na área de Periodontia da Faculdade São Leopoldo Mandic, compreender essa relação é importante para ampliar a abordagem da saúde bucal. “A periodontite não deve ser compreendida apenas como um problema localizado na gengiva. Trata-se de uma doença inflamatória crônica, associada ao biofilme e a uma resposta imune que contribui para a destruição dos tecidos periodontais. A literatura científica mostra uma associação entre a doença periodontal e desfechos cardiovasculares, embora ainda existam questões importantes sobre causalidade e sobre o impacto do tratamento na prevenção desses eventos. Por isso, cuidar da saúde periodontal faz parte de uma abordagem integral da saúde, sem substituir o controle dos fatores de risco cardiovascular já estabelecidos”, explica a especialista. Ela acrescenta: “O sangramento gengival durante a escovação, que muita gente considera banal, é um sinal da doença periodontal. Para quem tem hipertensão, diabetes ou histórico cardiovascular, a avaliação periodontal precisa entrar na rotina de cuidados, com a mesma regularidade do exame de sangue.”
O mesmo raciocínio vale para a pele. A psoríase, doença inflamatória crônica que atinge cerca de 2,8 milhões de brasileiros, ou 1,3% da população, segundo levantamento adotado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, também tem efeitos que alcançam a circulação. Revisão publicada em 2025 na revista Frontiers in Neurology, por pesquisadores da Universidade Médica de Varsóvia, reuniu evidências de que pacientes com psoríase têm risco de AVC maior que o da população geral, com alta de até 44% nas formas mais graves da doença, além de mais casos de fibrilação atrial. Os autores apontam como mecanismo provável a inflamação persistente, que lesa a parede dos vasos e acelera a aterosclerose.
“Psoríase e periodontite costumam ser tratadas como problemas locais, um da pele e outro da boca, e o risco cardiovascular desses pacientes acaba sem acompanhamento. Formar médicos e cirurgiões-dentistas na mesma instituição nos permite ensinar o aluno a perguntar pela pele e pela gengiva quando avalia o coração e o cérebro. O AVC que acontece aos 40 anos começou a se formar muito antes, e boa parte desse caminho aparece na consulta para quem sabe procurar”, conclui o Dr. Succi.
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