Na entrevista abaixo, o escritor Leo Rodrigues explica como a literatura pode ser uma forma de auxiliar os jovens a reconhecerem a própria sombra e a enfrentarem o processo de amadurecimento
Leo Rodrigues, que assina suas obras como Leão Flamejante, combina mitologia, filosofia, psicologia junguiana e tradições espirituais na fantasia épica Forjando a Armadura: O Despertar de Alvariel. A obra acompanha a jornada de uma personagem que pertence a uma sociedade aparentemente perfeita, mas rompe uma lei sagrada em nome da compaixão.
Construída como uma metáfora acerca da experiência humana e influenciada pelos conceitos de Carl Jung sobre Sombra e individuação, a narrativa Alvariel, que precisa reconhecer medos, desejos e contradições para transformar o mundo em que vive. De acordo com o autor em entrevista, a imagem da forja ganha centralidade na trama, pois, assim como o metal é submetido ao fogo e reorganizado, a protagonista também transforma perdas e fragilidades em elementos do seu amadurecimento.
Por meio de um livro de fantasia, Leo Rodrigues dialoga com os mais jovens para refletir sobre temas como identidade, pertencimento, coragem e dor. Na conversa abaixo, o autor fala sobre a criação de Miravelle e de Alvariel, as referências que alicerçam a obra e sobre o que fazemos com a dor após enfrentarmos momentos difíceis.
1. Alvariel rompe uma lei sagrada movida pela compaixão e acaba enfrentando grandes perdas. O que essa trajetória revela sobre o preço de seguir aquilo em que acreditamos, mesmo quando nossas escolhas desafiam regras e expectativas?
R.: Todas as grandes transformações sociais, científicas e filosóficas dependeram, em algum momento, de vozes dispostas a questionar aquilo que sua época tratava como verdade: a abolição da escravidão, o sufrágio universal, a ruptura com o modelo geocêntrico ou, na filosofia, o próprio Iluminismo e seu questionamento da autoridade e do dogma. O que esses movimentos nos ensinam é que uma das condições fundamentais da evolução é reconhecer que a busca pela perfeição é um caminho sem fim. A própria natureza nos ensina isso. A vida nunca chegou a uma forma final; ela se transforma continuamente. Se a evolução biológica tivesse, metaforicamente, decidido em algum momento que sua obra estava concluída, provavelmente não estaríamos aqui para contemplar tudo o que bilhões de anos de transformação produziram.
Alvariel vive justamente esse conflito. Ela pertence a uma sociedade que acredita ter alcançado a perfeição e, por isso, passou a confundir harmonia com ausência de questionamento. Quando ela ousa perguntar se aquela ordem realmente é tão perfeita quanto todos acreditam, torna-se uma ameaça. Talvez esse seja um dos principais recados que eu gostaria de deixar ao leitor: questione absolutamente tudo. Sobretudo aquilo que você próprio já considera uma certeza. Porque, às vezes, são justamente nossas convicções mais profundas que nos impedem de realizar os maiores avanços.
2. O livro dialoga com o conceito junguiano de “sombra” e com o processo de individuação. Como a psicologia de Carl Jung influenciou a construção da personagem e da jornada de autoconhecimento de Alvariel?
R.: O conceito de individuação de Jung influenciou profundamente a construção de Alvariel. Ela começa acreditando pertencer a um mundo de luz, harmonia e perfeição, no qual tudo aquilo que é sombrio deve permanecer do lado de fora. Aos poucos, porém, descobre que a verdadeira harmonia não nasce da pureza, mas da capacidade de reconhecer e integrar aquilo que existe dentro de nós.
Alvariel precisa descobrir que também possui medo, raiva, agressividade, desejo e contradições. O problema não é possuir uma Sombra; é permanecer inconsciente dela. Essa leitura está no próprio cerne da construção simbólica de Miravelle, cuja perfeição luminosa depende justamente da exclusão daquilo que é ambíguo e contraditório.
Isso conduz a outro conceito fundamental, a coniunctio oppositorum, a união dos opostos. No livro, luz e sombra, criação e destruição, vida e morte deixam progressivamente de ser absolutos incompatíveis e passam a revelar sua complementaridade. A jornada de Alvariel caminha justamente para a possibilidade de sustentar essas forças sem precisar eliminar um dos polos.
3. A armadura que Alvariel precisa forjar representa também uma transformação interior. Por que você escolheu a imagem da forja como metáfora para lidar com fragilidades, conflitos e amadurecimento?
R.: A imagem da forja surgiu inicialmente a partir do poema Forjando a Armadura, de Rudolf Steiner, que conheci em um contexto escolar Waldorf. O poema me tocou porque utiliza a construção de uma armadura como metáfora para a formação interior do ser humano. Mais tarde, durante a construção do livro, percebi que essa imagem dialogava de maneira muito profunda com a simbologia alquímica. Na alquimia, a matéria atravessa diferentes processos de transformação. O metal é submetido ao fogo, dissolvido, purificado, combinado e reorganizado até adquirir uma nova configuração.
Foi então que procurei combinar essas duas simbologias. Na obra, Alvariel também precisa atravessar seu próprio processo de forja. Cada experiência, perda, conflito e fragilidade que encontra durante a jornada fornece simbolicamente a matéria com a qual sua armadura será forjada. Os próprios metais das diferentes peças carregam correspondências alquímicas e planetárias: ouro e Sol, prata e Lua, ferro e Marte, cobre e Vênus, chumbo e Saturno, entre outras, e passam a representar diferentes dimensões de sua transformação interior. Mas não vejo a jornada de Alvariel como uma mensagem de que o sofrimento, por si só, nos torna mais fortes. O que nos transforma é aquilo que conseguimos fazer com esse sofrimento.
4. A obra reúne referências de filosofia, cosmologia e diferentes tradições espirituais dentro de uma narrativa de fantasia épica. Como foi o processo de pesquisa e de construção da mitologia de Miravelle e de todo esse universo?
R.: Muitos dos conhecimentos que deram origem à mitologia do livro vieram de leituras com as quais eu já havia tido contato: filosofia, literatura junguiana, tradições esotéricas, textos sagrados de diversas religiões e diferentes sistemas simbólicos. Mas acredito que a compreensão de como esses conhecimentos poderiam dialogar entre si veio principalmente de palestras de filósofos que acompanhei ao longo dos anos.
Quando decidi escrever Forjando a Armadura, havia uma quantidade enorme de ideias borbulhando na minha cabeça, e recorri à inteligência artificial como ferramenta para me ajudar a organizá-las, formalizar conceitos e aprofundar temas que eu conhecia apenas superficialmente. Ela foi muito útil na construção dos primeiros rascunhos da mitologia e como instrumento de pesquisa, mas também me mostrou seus limites. Por isso, procurei profissionais com conhecimentos específicos para revisar e refinar determinados aspectos da obra.
Entre eles, trabalhei com uma psicóloga de orientação junguiana, que não apenas me ajudou a corrigir algumas interpretações da IA, mas também aprofundou muito minha própria compreensão de Jung. Consultei também uma especialista em Futhark para escolher as runas que melhor correspondiam ao significado simbólico que eu queria atribuir a cada peça da armadura. Esse cuidado se estendeu até aos nomes. Personagens e lugares foram construídos a partir de referências etimológicas ou simbólicas relacionadas à função que desempenham na narrativa, com auxílio da IA.
5. As batalhas externas enfrentadas por Alvariel refletem conflitos internos e questões universais, como pertencimento, identidade, amor e coragem. O que você espera que o leitor reconheça sobre si mesmo ao acompanhar essa jornada?
R.: Dentre muitas coisas, eu gostaria especialmente que o leitor compreendesse que até a dor pode ter uma função. Muitas vezes, quando não conseguimos enxergar nenhum sentido nela, nossa primeira reação é tentar fugir, e acabamos fugindo também do potencial de transformação que certas experiências dolorosas podem oferecer. Isso não significa romantizar o sofrimento ou dizer que precisamos sofrer para evoluir, mas reconhecer que, quando a dor inevitavelmente chega, podemos tentar compreender o que fazer com ela.
Há uma razão muito pessoal para eu ter escolhido a fantasia épica: eu gostaria muito de dialogar com os mais jovens. Depois de atravessar a depressão, muitas vezes pensei que talvez pudesse ter enfrentado aquele período de outra maneira — ou quem sabe até evitado — se tivesse entrado em contato mais cedo com algumas das ideias que encontrei depois. Evidentemente, não tenho como saber. Mas essa possibilidade fez nascer em mim um desejo muito grande de transmitir esses conhecimentos por meio da literatura, especialmente aos mais jovens.
Se um jovem terminar o livro acreditando um pouco mais em sua própria capacidade de transformação, para mim isso já terá valido a pena. Quero que eles não percam a esperança de construir um mundo melhor e, principalmente, que não duvidem da própria capacidade de participar dessa construção.
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Sobre o autor: Leo Rodrigues escreve sob o pseudônimo Leão Flamejante e estreia na literatura com Forjando a Armadura: O Despertar de Alvariel. A obra explora as fronteiras entre mitologia, psicologia, consciência e transformação interior. A narrativa combina elementos épicos com uma investigação da experiência humana, onde batalhas externas refletem conflitos internos, e cada jornada é, acima de tudo, um caminho de autodescoberta. Leo também cria conteúdo audiovisual e expande o universo do livro para as redes sociais.
Instagram: @leoflamejante
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