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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Pausar é um ato de resistência: uma obra sobre esgotamento feminino e recomeços

 Em Vale das Pitangueiras, Elenice Koziel transforma o cansaço das mulheres, o luto e as heranças do campo em um romance sensível sobre uma nova vida após os 40

No aniversário de quarenta anos, Natália escolhe interromper uma trajetória que já não a sustenta por dentro. Professora exausta e sufocada pelas demandas de um sistema onde descanso é raro, se vê atravessada por um casamento falido, conflitos familiares latentes e a dor profunda do luto da perda da irmã. Nesse limite entre o colapso e a sobrevivência, ela decide se afastar do cotidiano urbano e buscar refúgio no sítio da avó, em Vale das Pitangueiras

A obra é fruto do olhar atento e profundamente empático da doutora em Estudos Literários Elenice Koziel. Ao perceber o cansaço invisível feminino, a autora cria uma travessia da linguagem técnica e acadêmica para a liberdade da literatura e aborda o assunto com sensibilidade. Pandemia, perdas e transições pessoais são as bagagens que proporcionam ao livro uma autenticidade rara, pois carrega experiências vividas e a observação cuidadosa do trabalho emocional atravessando gerações de mulheres brasileiras. 

Dentre as passagens narradas, a história parte do gesto de zelo com a babcia, como são chamadas as avós em polonês, que guarda as raízes da família e apresenta fragilidades físicas progressivas. A dedicação logo se transforma num mergulho corajoso de Natália em si mesma. No ritmo desacelerado do campo, ela se despe das urgências da cidade para aprender a linguagem do tempo natural.  

O trabalho manual e os rituais cotidianos conduzem a personagem a um reencontro com o próprio corpo, transformando o fazer simples em experiência de cura. Essa vivência se espelha na religiosidade da babcia, marcada pela memória e não apenas doutrina. Nesse entrelaçamento, o cuidado surge como eixo central da narrativa: não como sacrifício, mas como prática afetiva, ética e de permanência. 

No fundo, bicho se vira, mas ser humano necessita de 

 cuidados até quando jura que não precisa. 

(Vale das Pitangueiras, p. 28) 

Marcado por uma escrita sensível e imagética, a obra acompanha o ciclo das estações do ano para tratar de temas universais como a culpa, a solidão e a resiliência. Elenice propõe uma reflexão potente sobre a natureza das nossas marcas: as cicatrizes não são apresentadas como sinais de fraqueza ou derrota, mas como costuras essenciais que sustentam a estrutura de quem sobreviveu.  

A biografia da autora também se mistura à alma do livro. Filha da roça e de pequenos produtores rurais, ela imprime uma nostalgia política e afetiva. Vale das Pitangueiras é uma metáfora de pertencimento e resistência contra o esquecimento das nossas origens. Nesse romance acolhedor, é possível reconhecer os limites humanos e lembrar, com doçura e firmeza, que nunca é tarde para refazer a própria trama e permitir-se um novo florescimento, mesmo após o mais rigoroso dos invernos. 

Ficha Técnica: 
Título do livro: Vale das Pitangueiras 
Autora: Elenice Koziel 
ISBN/ASIN: B0G3M2M8VV 
Páginas: 159 
Preço: 60,92 
Onde comprar: Amazon 

Sobre a autora: Elenice Koziel nasceu na zona rural do interior do Paraná e mudou-se para a periferia de Campo Mourão (PR) na adolescência, onde vive até hoje. Mãe de três filhos, servidora pública, graduada em Letras, mestre e doutora em Estudos Literários. Publicou, em 2025, seu primeiro romance, Vale das Pitangueiras, obra selecionada no Edital de Seleção de Obras Literárias de Campo Morão. Anteriormente, escreveu crônicas para o jornal da cidade. Essa experiência com a crônica é refletida no romance, no ritmo da narrativa, no olhar sensível para as cenas aparentemente simples e na construção de uma escrita que valoriza o detalhe, a memória e a vida comum.    

Instagram: @kozielelenice 


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