
Por Thelma Nascimento
Uma das principais queixas dos pais na atualidade é a dificuldade de conversar com os filhos. Em meio à rotina acelerada, muitos adultos acreditam que estão atentos apenas por responderem automaticamente ou estarem fisicamente presentes. Ainda assim, cresce a sensação de desconexão dentro das famílias, Talvez porque ouvir seja fácil. Escutar de verdade exige algo mais raro: presença.
Ouvir é físico. É captar sons enquanto a cabeça está em outra coisa: no celular, nos compromissos, nas tarefas, nas preocupações. Essa atenção dividida passa despercebida aos adultos, mas não às crianças e adolescentes. Eles percebem quando a escuta é superficial. E, quando não se sentem vistos, costumam expressar isso por meio de choro, irritação ou silêncio. O que chamamos de "birra" muitas vezes é apenas frustração acumulada.
A diferença entre ouvir e escutar está menos nas palavras e mais na postura. Escutar implica interromper o próprio ritmo, olhar nos olhos, se aproximar com respeito, acolher sem julgamento imediato. É permitir que a criança termine de falar sem antecipar respostas ou correções. Trata-se de um gesto simples, mas profundamente transformador.
Do ponto de vista do desenvolvimento emocional, essa presença faz toda a diferença. A ciência já mostra que o cérebro infantil ainda está em formação, especialmente nas áreas responsáveis pela autorregulação. Por isso, crianças e adolescentes sentem antes de conseguir explicar. lidar com frustrações e confiar. Quando encontram pressa ou impaciência, aprendem a se calar. Ou a gritar para serem notadas.
Escutar de verdade não é resolver tudo, dar sermão ou corrigir imediatamente. Muitas vezes é apenas estar ali. É dizer, mesmo em silêncio: "eu te vejo". Mais do que educar, essa presença constrói vínculo, comunica que o outro importa e cria segurança emocional. Nenhum discurso substitui essa mensagem quando ela é transmitida pelo corpo, pelo tom de voz e pelo tempo dedicado, fortalecendo relações que resistem até aos dias difíceis.
Esse processo também convida os adultos a olharem para si. Muitas reações automáticas carregam marcas de uma infância em que sentir não era prioridade. Ao escutar uma criança, acabamos entrando em contato com partes nossas que também precisaram ser acolhidas.
O desafio é simples, embora transformador: da próxima vez que uma criança falar, deixe o celular de lado, respire e escute até o fim. Não interrompa. Não minimize. Só esteja presente.
Porque brinquedos passam, rotinas mudam, mas a memória de ter sido escutado permanece. Ninguém esquece como se sentiu quando alguém, finalmente, parou para ouvi-lo de verdade.
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Thelma Nascimento é educadora parental e autora de "Me escuta? Porque toda criança merece ser escutada (inclusive a que vive em você)"
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