Recuperar peso não é o mesmo que ficar “dependente”
A palavra dependência aparece com frequência quando alguém volta a engordar depois de parar uma caneta emagrecedora. O raciocínio parece lógico: se o peso voltou após a suspensão, então o corpo teria ficado dependente da medicação. Mas não é assim que uma doença crônica funciona.
Quando uma pessoa interrompe um remédio para hipertensão e a pressão volta a subir, ninguém conclui automaticamente que ela ficou viciada no tratamento. Entende-se que a medicação estava controlando uma condição que ainda existe.
O mesmo pode acontecer com a obesidade.
Estudos realizados com medicamentos como semaglutida e tirzepatida mostram que muitos pacientes recuperam parte importante do peso após a interrupção. Além da balança, benefícios como melhora da glicose, da pressão arterial e da circunferência abdominal também podem diminuir.
Isso não quer dizer que todas as pessoas voltarão ao peso anterior. Também não significa que todos precisarão usar a mesma medicação pelo resto da vida. Mas mostra que retirar o tratamento e simplesmente mandar o paciente “se controlar” pode ser insuficiente.
“O retorno do peso não deve ser tratado automaticamente como fracasso. É preciso entender o que reapareceu: fome intensa, compulsão, resistência à insulina, sedentarismo, falta de sono, alterações hormonais ou vários desses fatores ao mesmo tempo”, afirma o médico.
Afinal, é preciso usar para sempre?
Não existe uma única resposta.
Para alguns pacientes, a medicação poderá ser usada por um período e retirada com acompanhamento. Para outros, será necessário reduzir a dose aos poucos, trocar a estratégia ou manter o tratamento por mais tempo.
Há ainda pessoas para quem o uso prolongado poderá oferecer mais benefícios do que riscos, especialmente quando existem doenças associadas, histórico de grande recuperação de peso ou dificuldade intensa para controlar a fome sem tratamento.
O erro está em transformar qualquer uma dessas possibilidades em regra. Manter um medicamento sem reavaliar sua necessidade não é uma conduta responsável. Mas retirá-lo apenas porque o paciente atingiu determinado peso também pode não ser.
“Não existe mérito em suspender uma medicação necessária apenas para provar que o paciente consegue viver sem ela. Também não faz sentido mantê-la de forma automática. O tratamento deve continuar enquanto houver indicação, benefício e segurança”, esclarece o Dr. Arthur.
Mudança de hábitos continua sendo fundamental
Reconhecer que algumas pessoas podem precisar de medicamentos por mais tempo não torna alimentação e atividade física menos importantes. As medicações não escolhem alimentos, não garantem consumo adequado de proteínas, não constroem massa muscular e não resolvem sozinhas a relação emocional com a comida.
Por outro lado, mudanças de hábitos também não anulam automaticamente os mecanismos biológicos da obesidade.
Colocar remédio e estilo de vida como inimigos cria uma disputa que não ajuda o paciente. Em muitos casos, a medicação reduz a fome o suficiente para que a pessoa finalmente consiga organizar a alimentação, começar a se exercitar, dormir melhor e sair do ciclo de culpa.
Também é preciso lembrar que esses medicamentos podem causar efeitos adversos e não devem ser usados sem avaliação médica. Náuseas, vômitos, constipação e diarreia estão entre as reações mais comuns, e cada paciente precisa ter seus riscos analisados individualmente.
O peso chegou à meta. E agora?
Durante muito tempo, o emagrecimento foi tratado como uma corrida com linha de chegada. O paciente perdia os quilos, recebia os parabéns e saía do consultório com uma orientação vaga: “Agora é só manter”. Mas a manutenção não é o que acontece depois do tratamento. Ela é uma das partes mais delicadas dele.
É nessa fase que o apetite pode aumentar, a rotina muda, o entusiasmo diminui e o organismo tenta recuperar o peso. Por isso, manter resultados pode exigir acompanhamento da alimentação, do sono, da massa muscular, dos hormônios, da glicose e da saúde emocional.
Para alguns, a retirada será possível. Para outros, a redução de dose será mais adequada. E haverá pacientes que precisarão continuar a medicação por mais tempo. Nenhuma dessas situações deve ser interpretada como derrota.
“O objetivo não é manter alguém preso a um remédio. É evitar que o paciente continue preso ao ciclo de emagrecer, recuperar tudo, sentir culpa e começar novamente. O que pode precisar ser permanente é o cuidado, não obrigatoriamente a mesma prescrição”, resume o Dr. Arthur Victor de Carvalho.
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