Especialista em Ciências Sociais explica como a chamada 'machosfera' explora solidão e insegurança de jovens, enquanto algoritmos e modelos de monetização potencializam discursos extremos

Uma busca por mais autoestima, disciplina ou confiança pode ser o ponto de partida para jovens que acabam entrando em comunidades digitais associadas à chamada ‘machosfera’. O fenômeno reúne grupos e influenciadores que discutem masculinidade, relacionamentos e gênero e, segundo o professor Lucas de Souza, dos cursos de Ciências Sociais da UNIASSELVI, pode transformar experiências como solidão, rejeição e insegurança em discursos de ressentimento contra mulheres.
A machosfera reúne grupos distintos, como comunidades chamadas ‘Red Pill’, ‘MGTOW’ e ‘incels’, que apresentam interpretações específicas sobre as relações entre homens e mulheres. Para o professor, o principal elemento que aproxima essas comunidades não é simplesmente o fato de reunirem homens solteiros ou insatisfeitos com relacionamentos, mas a construção de uma explicação específica para as frustrações vividas por seus integrantes.
“O ponto principal é a produção de uma interpretação distorcida da masculinidade e das relações de gênero. Esses discursos transformam experiências muito complexas, como a solidão, rejeição, insegurança, dificuldade econômica, ausência de vínculos e sensação de fracasso, em narrativas onde existe um culpado bem definido: as mulheres e as transformações nas relações de gênero”, explica.
Lucas destaca que essa lógica pode ser especialmente atraente para jovens que sentem não corresponder às expectativas associadas à masculinidade. Desde cedo, meninos são ensinados a serem fortes, seguros, bem-sucedidos, sexualmente competentes e emocionalmente controlados. Quando percebem que não conseguem atingir esse modelo, podem interpretar uma dificuldade específica como um fracasso da própria identidade.
“Quando esse jovem fracassa diante dessas expectativas, ele pode sentir que não está apenas fracassando em uma situação específica, ele pode, e geralmente vai sentir, que está fracassando enquanto homem”, afirma.
É nesse momento, segundo o professor, que essas comunidades oferecem pertencimento e uma explicação aparentemente simples para problemas complexos. “A machosfera vai oferecer uma saída que é perversa. Porque ela diz: ‘você continua sendo um homem legítimo: o problema são as mulheres, o feminismo, os homens considerados superiores, a sociedade’. Ou seja, o indivíduo não é o problema, mas sim todo um sistema que está impedindo ele de conseguir aquilo que ‘merece’. A frustração é real, mas a explicação oferecida é, no mínimo, distorcida. E o pior: esse discurso é, ao mesmo tempo, simplista e sedutor”, diz.
Autoajuda e radicalização
Esse processo pode ser ampliado pelos algoritmos das plataformas digitais, o que, segundo o professor da UNIASSELVI, é um dos aspectos mais preocupantes. “É preocupante não porque o algoritmo tenha necessariamente a intenção de produzir alguém misógino, mas porque sistemas de recomendação tendem a aprender aquilo que mantém a atenção das pessoas. O jovem pode começar assistindo a um vídeo sobre academia ou confiança. Depois recebe conteúdo sobre ‘como ser mais atraente’. Em seguida aparece uma explicação sobre ‘homens de alto valor’. Depois vem a ideia de que ‘as mulheres só procuram determinados homens’. E assim vão surgindo conteúdos cada vez mais agressivos, que podem parecer apenas uma continuação lógica daquilo que ele já estava assistindo, mas não são”, afirma.
Outro problema acontece quando frustrações passam a ser explicadas por teorias que tratam as mulheres como um grupo homogêneo. “Alguns desses grupos deixam de perceber as mulheres como pessoas com história, desejos, contradições e demais características próprias de cada indivíduo, e passam a serem percebidas como uma categoria previsível, que seguem ‘regras universais’, como a ideia de que elas estariam sempre procurando homens mais ricos, mais fortes, mais altos, mais desejáveis ou socialmente superiores. Assim, os homens aprendem a avaliar permanentemente se são suficientemente fortes, desejáveis, competentes, viris ou bem-sucedidos. A machosfera captura justamente essa insegurança e transforma ela em uma espécie de vigilância permanente sobre as mulheres e sobre si próprio”, explica.
Lucas destaca que existe uma contradição importante nessa lógica. “Um discurso que promete libertar o homem daquilo que ele chama de ‘dominação feminina’ pode produzir justamente mais controle, mais desconfiança e mais ansiedade. O homem passa a entrar na relação não para conhecer aquela mulher concreta, mas para descobrir se ela corresponde àquilo que a teoria disse que ela seria. Então não há uma experiência real, só uma confirmação do que ele, previamente, já esperava”.
Por isso, segundo ele, a responsabilidade por essa desconfiança não pode ser colocada sobre as mulheres. “Não cabe às mulheres provar constantemente que não são aquilo que a machosfera diz que elas são. Quem precisa rever essa lógica são os homens que estão sendo ensinados a interpretar qualquer frustração afetiva como confirmação de uma ‘teoria geral sobre as mulheres’”, ressalta.
Educação antes da radicalização
Para o professor, enfrentar esse fenômeno exige mais do que retirar jovens desses espaços depois que eles já foram influenciados. A escola precisa participar da formação sobre masculinidade, relações de gênero, afetividade e letramento digital.
A proposta, segundo Lucas, não é estabelecer um novo modelo obrigatório de masculinidade, mas ampliar as possibilidades para que os meninos não associem seu valor exclusivamente à força, ao sucesso, ao controle emocional ou à conquista sexual. Arte, literatura, cinema, esporte e outros espaços de convivência também podem ajudar a oferecer repertórios e formas de pertencimento diferentes das encontradas em comunidades baseadas no ressentimento.
“A questão não é simplesmente retirar o jovem desses círculos. É oferecer outras formas de pertencimento, outras formas de aprender o que pode significar ser homem, porque existem formas de exercer a masculinidade que não passam por essa construção quase utópica. Se o único lugar onde ele encontra reconhecimento é uma comunidade que transforma a dor dele em ódio, nós não podemos nos surpreender quando esse ódio se torna identidade. Precisamos oferecer outros lugares onde eles possam pertencer, falar, criar, ler, assistir a filmes, fazer música, praticar esportes, conversar e, principalmente, descobrir que não existe uma maneira única de ser homem”, conclui.
Sobre a UNIASSELVI
A UNIASSELVI é uma das mais conceituadas instituições de ensino superior do Brasil. Com uma oferta diversificada de mais de 500 cursos, que incluem Graduação, Pós-Graduação, Profissionalizantes e Técnicos, nas modalidades presencial, semipresencial e a distância (EAD), a instituição se destaca pela sua abrangência e qualidade educacional. Presente em todos os estados brasileiros, a UNIASSELVI conta com uma ampla rede de mais de 1,3 mil polos e mais de 16 unidades de ensino presencial. É reconhecida como a única instituição de grande porte nacional a receber nota máxima no Recredenciamento Institucional, concedido pelo Ministério da Educação (MEC). A missão da UNIASSELVI é fornecer os recursos e o suporte necessários para que os alunos construam suas próprias histórias e alcancem o sucesso acadêmico e profissional, promovendo assim o desenvolvimento pessoal e profissional de cada estudante.
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