A partir de “V4T3R”, Eduardo Magela Rodrigues discute pressão social, solidão e o
enfraquecimento das referências coletivas
Por Eduardo Magela Rodrigues*
O filósofo e teólogo francês Jacques Ellul afirma, em seu livro Hope in Time of Abandonment: “o fim da
esperança é discreto e silencioso. É como uma veia aberta em um banho quente, que drena todo o
sangue e traz o sono sem dor e sem reação. Não dá origem a nada e quase não tem consciência de si
mesmo”. Quantos estão, neste momento, dentro desta mórbida banheira, se esvaindo
inadvertidamente até que seja tarde demais?
O que causa esse esvaziamento de sentido, essa inércia existencial diante de todas as possibilidades que
a vida oferece, essa solidão coletiva que nos abarca? Uma resposta pode ser as pressões estruturais da
sociedade moderna, que exigem que o indivíduo esteja o tempo todo promovendo feitos e conquistas
para que possa se sentir aceito. Essa exposição incessante a recortes de vidas perfeitas, que, na maioria
das vezes, não existem para além das redes sociais, pode ser um catalisador para a perda da esperança.
As aparências são o que importa; nosso âmago, não. Eu, como indivíduo, preciso transmitir
constantemente a sensação de que meus dias são permeados por ‘momentos grandiosos’. Caso
contrário, corro o risco de me sentir alguém ‘inferior’ e flertar com o soturno banho de veias abertas.
Quando as referências deixam de acolher
O problema é que, nesse contexto pouco animador, as instituições que deveriam servir de amparo para
os desesperançosos naufragam em suas próprias mazelas. Como argumentar que a solução está na
política, quando os escândalos se renovam diariamente, com uma incômoda repetição de personagens
que sempre se safam no final? Que ânimo pode ser insuflado num cidadão que vê o dinheiro de seus
impostos ser desviado para proporcionar vidas nababescas a pessoas cujo único mérito são suas
conexões com o poder? Semelhante raciocínio serve para a religião, que tem colecionado ao longo dos
últimos anos episódios vexatórios envolvendo líderes espirituais de todos os credos. E se estende para
as organizações sociais, muitas delas servindo apenas de fachada moral para todo o tipo de falcatruas.
Essa infeliz combinação de instituições falidas e uma sociedade personalista resulta na diluição das
narrativas coletivas. Os objetivos tornam-se puramente individuais, pois o ‘eu’ precisa brilhar mais do
que o ‘nós’. Não importa se a busca pela ‘relevância social’ envolve o sacrifício da dignidade e valores
éticos, fazendo com que indivíduos abram mão de sua saúde mental e de seus preceitos básicos para
agradar pessoas que nem mesmo conhecem. É preciso vencer a qualquer custo, não importando se os
atos afetam negativamente outras pessoas. E, caso algo dê errado, não há hesitação em transferir a
culpa ou negar veementemente as evidências, esperando que o passar do tempo e o surgimento de
outro fato se sobreponham.
Uma fresta de luz em meio ao desamparo
Em meu livro “V4T3R - Parte I: O Basilar e o Padre”, Amaro, o sacerdote, decide enfrentar as
consequências de suas decisões até o fim. Resiliente, ele não se permite transferir para outrem as
consequências de seus atos, muito menos usar como desculpa as circunstâncias extremamente
desfavoráveis que o cercam. O mundo ao redor está arruinado, mas ele insiste em manter sua
integridade, mesmo quando provavelmente não seria cobrado por isso. Sua atitude pode parecer inútil,
mas pode servir como uma ‘fresta de luz’ capaz de inspirar, de fazer com que outros retomem a
esperança perdida. E deixem a banheira mortal.
*Eduardo Magela Rodrigues é engenheiro de software com mais de 20 anos de experiência em
tecnologia. Sua formação acadêmica inclui graduação em Letras (FAPAM) e especializações em
Engenharia de Sistemas (PUC-MG) e em Big Data e Machine Learning (XP Educação). Na literatura, é
autor da trilogia “V4T3R”, cuja segunda parte está em desenvolvimento, além de trabalhar em outros
projetos de ficção científica e fantasia.
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