Dependência emocional, medo da rejeição e idealização excessiva podem estar por trás de relacionamentos que causam mais dor do que felicidade
A televisão tem o poder de provocar reflexões importantes sobre comportamentos que fazem parte da vida real. É o caso da personagem Brigitte Brandão, vivida por Tatá Werneck na nova novela da Globo, que tem chamado a atenção do público por mergulhar intensamente em cada relacionamento, criando expectativas rápidas, idealizando parceiros e colocando o amor como centro absoluto de sua vida.
Embora a abordagem tenha momentos de humor, especialistas alertam que situações semelhantes podem esconder questões emocionais profundas e bastante comuns.
O amor patológico, popularmente conhecido como "síndrome de amar demais", é uma forma de se relacionar que pode levar a sofrimento, frustração e perda da própria identidade. Segundo a psiquiatra Dra. Maria Fernanda Caliani, o amor saudável é diferente da dependência emocional.
"Amar é uma experiência natural e positiva. O problema surge quando a felicidade, a autoestima e o sentido da própria vida passam a depender exclusivamente da presença ou da aprovação de outra pessoa. Nesses casos, o relacionamento deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade emocional", explica a psiquiatra.
QUANDO O AMOR DEIXA DE SER SAUDÁVEL
• Medo excessivo de ficar sozinha;
• Sofrimento intenso diante de rejeições ou términos;
• Necessidade constante de contato e validação;
• Idealização rápida de parceiros;
• Ciúme excessivo e insegurança;
• Dificuldade de estabelecer limites;
• Permanência em relacionamentos prejudiciais por medo do abandono;
• Sensação de vazio quando não se está vivendo um relacionamento.
Para a especialista, esses padrões muitas vezes têm raízes em experiências anteriores.
"Muitas pessoas carregam feridas emocionais relacionadas à rejeição, abandono, baixa autoestima ou insegurança afetiva. Sem perceber, acabam buscando no outro uma sensação de preenchimento que deveria vir de dentro", afirma Dra Maria Fernanda.
O PERIGO DE TRANSFORMAR O AMOR EM SALVAÇÃO
Outro aspecto comum é a tendência de acreditar que um relacionamento será capaz de resolver todos os problemas emocionais.
A expectativa de que o parceiro traga felicidade permanente pode gerar frustração constante e relacionamentos marcados por cobranças, ansiedade e sofrimento.
"Quando alguém acredita que só será feliz se estiver ao lado de outra pessoa, cria uma pressão muito grande sobre o relacionamento. Nenhum parceiro consegue ocupar esse lugar de salvador emocional", alerta Dra. Maria Fernanda.
REDES SOCIAIS PODEM INTENSIFICAR O PROBLEMA
Em tempos de redes sociais, a idealização dos relacionamentos ganhou ainda mais força.
Casais aparentemente perfeitos, declarações públicas e demonstrações constantes de afeto podem fazer muitas pessoas acreditarem que o amor verdadeiro precisa ser intenso o tempo todo.
"A comparação constante faz com que algumas pessoas sintam que seus relacionamentos nunca são suficientes. Isso aumenta a ansiedade e reforça a busca por validação externa", explica a psiquiatra.
AMAR SEM SE ABANDONAR
Para a especialista, o amor saudável acontece quando existe troca, respeito e individualidade.
Manter amizades, projetos pessoais, autonomia e autoestima fortalecida é fundamental para construir relações equilibradas.
"Relacionamentos saudáveis são aqueles em que duas pessoas caminham juntas sem abrir mão de quem são. O amor deve acrescentar à vida, não substituir a própria identidade", afirma.
QUANDO PROCURAR AJUDA?
Se os relacionamentos são marcados por sofrimento recorrente, medo intenso da rejeição, dependência emocional ou repetição de padrões que causam dor, o acompanhamento psicológico ou psiquiátrico pode ser um importante caminho para a transformação.
Buscar ajuda não significa deixar de acreditar no amor. Pelo contrário.
Significa aprender a construir relações mais conscientes, maduras e saudáveis.
Porque amar é importante. Mas amar a si mesma continua sendo a base de qualquer relacionamento saudável.
Fonte: Dra. Maria Fernanda Caliani, psiquiatra.
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